terça-feira, agosto 23, 2005
Ilusões
Dunas ondulantes até ao rasgar do horizonte. Que são rasgadas pelo jipe em forma de chaimite, destemidamente conduzido por Kholm, Julie Kholm.
Julie leva o seu jipe à máxima rotação, com olhos fixos no fim do sol, passando pelos controlos portageiros dos oásis sem parar, cruzando a enigmática Marrakech até alcançar os infinitos novelos de pessoas no Museu Municipal de Havana. Pára a viatura, e sai desenfreadamente a correr, passando paralelo ao largo do novelo até chegar à porta.
“Olhe, eu queria entrar porque ela está lá dentro. Pode ser?”
E o porteiro, embasbacado mas derretido pelo olhar doce e plasmático de Julie, gesticula com ordem de entrada. O novelo de gente cose-se com rapidez para albergar os pés de Julie com botas oriundas de Budapeste.
Ela grita e ninguém responde. Corre sem orientação, distraída com as letras de poemas decalcados e entra numa sala mestra. Uma sala que expõe agrafadores de toda a história humana que é conhecida.
Ela pára e observa as várias formas. Senta-se. Apoia a cabeça na mão esquerda com o cotovelo no joelho. Imagina a sua vida reflectida no brilho metálico dos agrafadores.
Ri-se, porque lembra-se que as rugas cravadas no reflexo enaltecem a paixão de viver.